'Literature takes a habit of mind that has disappeared. It requires silence, some form of isolation, and sustained concentration in the presence of an enigmatic thing.'
Philip Roth
— Bertrand Russell, Sociedade Humana em Ética e Política
Era um retrato na parede. Era
uma parede num retrato. Pus
o retrato na parede. Pus a parede
no retrato. Para o retrato não
ficar sem parede, tirei o retrato
na parede. Para a parede não ficar
sem retrato, dei um retrato
à parede. E com o retrato na parede,
a parede ficou sem retrato.
Nuno Júdice
O que escrevi nessa distância minha
De jovem, a de que a alma ficou cheia.
Porque foi o melhor que a alma tinha;
Reli, e desconheço quem foi o poeta
Nessa ocasião em que esplendi absorto,
E o que sou hoje é uma sombra preta
Sobre o chão limpo desse poeta morto.
Reli; nem saberei que é que fui
Quando fui o poeta que não sou…
Não sei que rio por minha alma flui.
Sei que trouxe meu ser e mo levou.
Fernando Pessoa
Milan Kundera
[A valsa de despedida]
Emil Cioran, Breviário de Decomposição
Emil Cioran
(Breviário de Decomposição, pág.188, ed. Rocco, 2011)
Ao pentear-se, com o sol
a entrar pela janela, perguntava
a si própria se era a mesma de ontem,
como se houvesse
alguma lógica na relação entre a luz
e o pensamento que nascia do seu gesto. Mas
o que a manhã trazia era um sentimento
que interrompia o passar
dos minutos, e a levava a descobrir
que a vida pode ser um parêntesis
entre uma hora e outra. E quando
se olhava ao espelho, o tempo
voltava a passar no mostrador do relógio,
com o ponteiro a correr no sentido inverso,
trazendo-a de volta a um hoje
em que amanhã é o mesmo
dia de ontem.
Nuno Júdice
Emil Cioran
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles