sábado, 26 de novembro de 2022



 “ainda dá tempo pra tudo, basta a gente querer”

Ainda dá tempo pra tudo.

Pode o céu estar fechado neste instante, mas uma hora abre, não falha. Pouco importa sua idade: você está vivo. Então ainda dá tempo para você reatar, dá tempo para você terminar uma relação ruim e começar outra, dá tempo de pedir perdão ou de colocar uma pedra sobre o assunto que incomoda, dá tempo de ter um relacionamento mais leve e prazeroso, e indo além das questões amorosas: dá tempo de conhecer a Ásia, de escrever suas memórias, de mergulhar no mar à noite, de aprender a cozinhar, de falar italiano, de fazer diferença, de começar uma coleção. Se me permite uma sugestão: colecione inúmeras ”primeiras vezes”. Todas as primeiras vezes que você tem evitado porque não simpatiza com mudanças.

Aqui entra a segunda parte da frase: basta a gente querer.

É a parte mais difícil: querer. Porque querer dá trabalho. Querer convoca à ação. Te arranca debaixo das cobertas. Querer pressupõe suor, planejamento, esforço, risco. O querer te cobra, te aponta o dedo, e aí, criatura? Quis tanto e não batalhou? Querer te chama para o combate. E lá vai você.

Queira. Não se contente com o que já tem. Ou com o que nunca teve. Queira mais, queira melhor, queira o impossível, queira sem garantia de ser bem sucedido, simplesmente queira tanto, mas tanto, a ponto de emitir sinais – alguém há de captá-los.

Recado para os cansados: ainda dá tempo. Para os desiludidos: ainda dá tempo. Para os frustrados: ainda dá tempo. Para os desistentes: tente um pouco mais. Você respira? Então ainda dá.

Martha Medeiros



 já matei alguns sentimentos

mas foi em legítima defesa


Zack Magiezi


Às vezes não basta

Em noites como essa

Os barulhos da cidade incomodam

É sábado

Algo borbulha dentro de você

Como se a vida e as funções biológicas

Estivessem lhe cobrando movimento

Uma vida plena

Yoga ou sei lá o que

Melhor procurar o conselho da galera que ensina a gente a viver

Nada basta

Vejo dancinhas, vejo adultos dublando vozes de crianças

O foda é saber que boa parte dessa galera também é triste em uma noite como essa

Todos somos

Há noites que sabem bater pesado

Aquilo ainda está em você

O sentimento de vazio e autoengano

E você só pensa em que não pensa mais em ti

Sente aquela vontade de atravessar uma maldita tela

E dizer o que deveria ser dito

Mas você ia ficar mais fodido porque veria que seu esforço não deu em nada

Às vezes você só quer alguém que realmente aprecie a sua companhia

É como se elas nos devolvessem para o nosso corpo

Saca

Sentar em uma mesa de bar, falar da vida

Mas algumas vezes estamos em um não lugar, um limbo

E vemos as pessoas que escolhemos para sempre

Amores, amigos, afetos

Vivendo a vida, seguindo em frente e sem você

Hoje conversando com um amigo eu disse

O bom de envelhecer é que você aprende a ver quem são as pessoas que estão realmente com você até o fim

Pena que ainda existe afeto pelas pessoas que decidiram ir

Não passamos mais nem pelo pensamento ou lembrança delas

Mas sobrevivemos

Mesmo amputando pessoas, dores fantasmas

Essa é uma verdade

Em noites como essa

Mesmo se você estiver em uma festa cercado de gente

Ou no bar mais instagramável

Nos apps buscando um match

Na Timeline

Ou no quarto olhando pela janela

Tentando tirar esse vazio

Você chega a uma conclusão censurável

Às vezes o amor-próprio não basta

Ninguém gosta de admitir isso

Às vezes você queria que uns olhos atentos olhassem para você

Mas só há uma cidade com um silêncio insuportavelmente barulhento.


Zack Magiezi

sexta-feira, 25 de novembro de 2022


Os tristes dizem que os ventos gemem; Os alegres acham que cantam.

Zalkind Piatigorsky , O caminhante

Um contributo à estatística


De cada cem indivíduos


os que sabem tudo melhor

— cinquenta e dois;


inseguros de cada passo

— quase todo o resto;


prontos para ajudar

desde que não demore muito

— até quarenta e nove;


sempre bons,

porque não sabem ser de outro jeito

— quatro, bem, talvez cinco;


dispostos a admirar sem inveja

— dezoito;


vivendo em constante medo

de alguém ou de algo

— setenta e sete;


com aptidão para a felicidade

— vinte e poucos no máximo;


inofensivos individualmente,

ferozes na multidão

— por certo mais que a metade;


cruéis

quando as circunstâncias exigem

— melhor não saber

nem por aproximação;


gatos escaldados

— não muitos mais

do que os não escaldados;


os que não levam nada da vida além de coisas

— quarenta,

embora eu quisesse estar enganada;


encolhidos, doloridos

e sem lanterna na escuridão

— oitenta e três,

mais cedo ou mais tarde;


dignos de compaixão

— noventa e nove;


mortais

— cem de cem.

Número que até aqui segue inalterado.


Wislawa Szymborska

terça-feira, 22 de novembro de 2022


 Subversiva


A poesia

Quando chega

Não respeita nada.


Ferreira Gullar

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

VIAGEM NO TEMPO




Percorro a casa. Os claros

espaços dos antepassados.


As vigas. Os caibros. As telhas.

As vértebras das teias


de aranha. Por aqui

as serpentes dos pântanos


deixaram fragmentos

de astúcia e morfina.


Vestígios de borboletas

mortas vivem nas gavetas.


Dos ponteiros do relógio

pingam as gotas das horas.


Por todos os cantos

da casa a memória sangra.


Francisco Carvalho

 



Não busques a paixão.

Ela, que não sabes onde está,

te encontrará


Casimiro de Brito

 


A crítica é um contrassenso: é preciso ler, não para compreender outrem, mas para compreender a si mesmo.

Emil Cioran (In: "Confissões e Anátemas")

 



Secreto como um seixo, e oferecido

Com a branda ternura que o envolve.

É este o corpo de luz anunciada .

Quantos anos viveste, em sombra ausente,

Geraram longamente a hora, o gesto

Que da noite do seixo, alma da pedra

Lança o grito solar como um protesto 


José Saramago, Provavelmente alegria



 The home is the center of life. It is a refuge from the grind of work, the pressure of school, and the menace of the streets. We say that at home, we can “be ourselves.” Everywhere else, we are someone else. At home, we remove our masks.

The home is the wellspring of personhood. It is where our identity takes root and blossoms, where as children, we imagine, play, and question, and as adolescents, we retreat and try. As we grow older, we hope to settle into a place to raise a family or pursue work. When we try to understand ourselves, we often begin by considering the kind of home in which we were raised. 


~Matthew Desmond (Book: Evicted) 

VUELTA


ah, esse tempo e essa distância.

tu a quantos passos dos meus dedos,

do meu alcance,

dos meus segredos e da minha sanha.

tu que me tens fácil

e me ganhas em palavras comezinhas,

amiúde em tua voz e nela envoltas

que nem percebo-as minhas.

traídas no teu timbre

e de mim subtraídas,

o teu chamado eu ouço

no teu chamado eu fico.

 

e assim o ambiente tu preparas,

trazendo, a cada instante,

somente o que a ele é necessário;

já eu, pelo contrário,

ou trago tudo ou nada trago:

ou te como de beijos

ou te devoro de ausências.

 

mas sabes o meu preço:

declinas o teu colo,

solfejas um bolero,

e dizes o que eu quero

na espera que ofereço

(e mais esperaria,

 que esse tempo não se conta),

e tu, num faz-de-conta,

nos lábios que a custo movimentas,

lançando-me palavras

castas e sedentas,

certeiras e fugidias,

com as quais, sabes, me adias

e com elas me demoro

porque tanto me inebria.

 

mas, é pouco. pensas.

 

não sei como,

mas, aos poucos,

lentamente,

todo o ambiente olorizas.

um cheiro não guardado nos perfumes

e às flores, certamente, ocultado;

e eu, embriagado,

sabendo-te culpada da fragrância,

mais me aproximo

e inútil escondo a ânsia

de vestir-me do teu corpo,

de beber a tua pele,

cada pêlo e cada poro,

cada curva, toda parte,

eu inteiro, tu completa.

 

e como não convém dizer segredos

a olhos que não sejam teus e meus,

deixemos que adivinhem o percurso

da vuelta e reencontro

do meu toque, meu olhar,

no presente derradeiro que me deste:

tu inteira,

epicentro desse cheiro.

 

 

Antoniel Campos