domingo, 13 de fevereiro de 2022

Parodiando

fabian perez

 

O que eu amo em ti

não é esse jeito de cereja

e esse olhar de seis da tarde

não é essa mania de andar bolerodiando

nem mesmo é a tua educatez.


O que eu amo em ti

não é essa boca de vinho

nem o teu piano. Tocas. E nem é isso.

Os livros que leste, nem mesmo o que sabes ou não sabes.

Não é tampouco o teu ambicionismo

ou teu traço de desenho ou o compasso.


Nem teu andando em lenta marcha vagarosa

nem a doçura, a pura frescura tua de alface...

nem mesmo o teu cheiro de alface

teu cheiro de ar com um resto de perfume

nem teu carro (com ar condicionado)

nem teu cachorro

não, não é nem isso que eu amo em ti.


O que eu amo em ti

não é tua preguiça esticada ao sol

emsombreada de impressionismo

não são os silêncios de que és feito

nem o instante que povoas

ou o mistério que às vezes te povoa.

Não é este ar letárgico, trágico, trístico,

tanguístico, místico com que te sentas a cadeira

ou acendes um cigarro

somente para por um pouco de fumaça

entre ti e o mundo.


Não é tua voz irônica e sábia

que me preenche os brancos da cabeça

nem mesmo tua cabeça ou tua espiritualidade

ou tua força, tua certeza ou tua fragilidade.

Acaso tua beleza? Não, nem é isso.


Nem mesmo o que eu amo em ti

é a tua gargalhada

que transpassa meu ouvido

cheia de espuma e sol de agosto

com gosto de aventura

ou o teu beijo

que cada vez sabe a uma coisa

mas que sempre é tão beijável.


Não é teu jogo de tênis (tão branco de propaganda)

recortado no horizonte,

nem teu corpo plástico, elástico, cheio de fluxos

e de percursos de vibração.

Não é bem isso.


Nessa sucessão constante de agoras

o que eu amo em ti

não é o que refletes de improviso

nem é o inesperável

nem o superalgo


o que eu amo em ti

... são as rugas meu amor, as rugas...


Bruna Lombardi