fabian perez |
O que eu amo em ti
não é esse jeito de cereja
e esse olhar de seis da tarde
não é essa mania de andar bolerodiando
nem mesmo é a tua educatez.
O que eu amo em ti
não é essa boca de vinho
nem o teu piano. Tocas. E nem é isso.
Os livros que leste, nem mesmo o que sabes ou não sabes.
Não é tampouco o teu ambicionismo
ou teu traço de desenho ou o compasso.
Nem teu andando em lenta marcha vagarosa
nem a doçura, a pura frescura tua de alface...
nem mesmo o teu cheiro de alface
teu cheiro de ar com um resto de perfume
nem teu carro (com ar condicionado)
nem teu cachorro
não, não é nem isso que eu amo em ti.
O que eu amo em ti
não é tua preguiça esticada ao sol
emsombreada de impressionismo
não são os silêncios de que és feito
nem o instante que povoas
ou o mistério que às vezes te povoa.
Não é este ar letárgico, trágico, trístico,
tanguístico, místico com que te sentas a cadeira
ou acendes um cigarro
somente para por um pouco de fumaça
entre ti e o mundo.
Não é tua voz irônica e sábia
que me preenche os brancos da cabeça
nem mesmo tua cabeça ou tua espiritualidade
ou tua força, tua certeza ou tua fragilidade.
Acaso tua beleza? Não, nem é isso.
Nem mesmo o que eu amo em ti
é a tua gargalhada
que transpassa meu ouvido
cheia de espuma e sol de agosto
com gosto de aventura
ou o teu beijo
que cada vez sabe a uma coisa
mas que sempre é tão beijável.
Não é teu jogo de tênis (tão branco de propaganda)
recortado no horizonte,
nem teu corpo plástico, elástico, cheio de fluxos
e de percursos de vibração.
Não é bem isso.
Nessa sucessão constante de agoras
o que eu amo em ti
não é o que refletes de improviso
nem é o inesperável
nem o superalgo
o que eu amo em ti
... são as rugas meu amor, as rugas...
Bruna Lombardi