segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Renúncia

Pat Erickson

Rama das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...


Cecília Meireles
In Viagem, 1938

Tema e voltas

Olga Mest


Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

Manuel Bandeira

Introdução do Silêncio

 © Omar Ortiz


Em que lonjuras e frios
Fomos modelados
Para o nascimento do amanhã?

Em que limites escondidos
Fomos atirados?

Em que presença do terror
Fomos gerados
Para sentir no vento o odor do sangue?
Em que vácuo
Procuramos a paz que precisamos,
Em que imenso balcão
Fomos expostos,
Em que lodo fétido dos séculos
Foi atirada a grandeza do espírito?


Adalgisa Nery
In Erosão (1973)

O que amamos está sempre longe de nós

Grace Mehan DeVito


O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz.

Não necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escuridão.


 Cecília Meireles

Palavra exata

Gleb Goloubetski



Para buscar a palavra
exata,
a palavra-mapa,
a que me nomeia,
velejo numa barca
abstrata, precária.
O vento me envolve
e sopra música
em meus ossos:
talvez eu seja
essa canção
invertebrada,
esse sopro.

Roseana Murray

94. As três fases da moralidade até agora




Temos o primeiro sinal de que o animal se tornou homem, quando a sua atuação já não se relaciona como bem-estar momentâneo, mas com o duradouro, prova de que o homem adquire o sentido útil, do adequado: é então que, pela primeira vez, irrompe o livre senhorio da razão. Um estágio ainda mais elevado é alcançado, quando ele age consoante o princípio da honra; graças ao mesmo, ele  adapta-se, submete-se a sentimentos comuns, e isso o ergue muito acima da fase, em que só a utilidade entendida em termos pessoais o guiava; ele respeita e quer ser respeitado, isto é, entende o proveito como dependente do que ele opina acerca dos outros, do que os outros opinam acerca dele. Finalmente, na fase mais elevada da moralidade em uso até agora, ele age segundo o seu critério quanto às coisas e às pessoas, ele próprio determina para si e para outros o que é honroso, o que é útil; tornou-se o legislador das opiniões, em conformidade com o conceito cada vez mais desenvolvido do útil e honroso. O conhecimento habilita-o a preferir o mais  útil, ou seja, a colocar o proveito geral e duradouro à frente do pessoal, a respeitosa estima de valia geral e duradoura à frente da momentânea; ele vive e atua como indivíduo coletivo.


Friedrich Nietzsche em Humano, demasiado humano
By Tony Pavone

quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador

Al Berto

Todos os Dias

Alex Alemany 

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.

Alberto Caeiro
Benito Cerna

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
à passagem do tempo. A juventude é um vício
que perdemos inevitavelmente. Dizes: é breve o amor,
efêmera a vida.

Somos uma estância museológica,
algo anacrônico que aprende a perdurar por medo
de morrer. Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

Basta-me que o teu olhar me encontre.


José Rui Teixeira

Sexo, mais sexo


A mão que pretende se defender e recua. A perna que busca revidar e prende ainda mais.

A vontade de agredir transformada em agrado. Nada mais sensual do que a agressividade contida. No sexo, a violência dança. A violência transborda permanecendo presa ao ritmo.

Sexo é confissão. É quando você pode dizer a verdade sem precisar explicar. Seu pensamento está no corpo. Seu desejo está exposto. Nenhuma palavra pode substituir a experiência que acontece naquele momento. Até a raiva é inteligente. O olfato muda, o tato muda, o paladar avança sem nenhum receio. Os olhos são toda a pele.

Não há vergonha. Tudo pode ser inventado porque nada é escondido.


Fabrício Carpinejar

Não discuto

John Paul


não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Paulo Leminski

If you were coming in the fall,
I'd brush the summer by
With half a smile and half a spurn,
As housewives do a fly.
If I could see you in a year,
I'd wind the months in balls,
And put them each in separate drawers,
Until their time befalls.

If only centuries delayed,
I'd count them on my hand,
Subtracting till my fingers dropped
Into Van Diemens land.

If certain, when this life was out,
That yours and mine should be,
I'd toss it yonder like a rind,
And taste eternity.

But now, all ignorant of the length
Of time's uncertain wing,
It goads me, like the goblin bee,
That will not state its sting.

Emily Dickinson