segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Dance Me To The End of Love

Álvaro Castagned



Dance me até o fim do amor
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love 



Leonard Cohen

Balada dos Casais




Os casais são tão iguais, 
por isto se casam 
e anunciam nos jornais.
Os casais são tão iguais, 
por isto se beijam 
fazem filhos, se separam 
prometendo 
não se casarem jamais.
Os casais são tão iguais, 
que além de trocar fraldas, 
tirar fotos, acabam se tornando 
avós e pais.
Os casais são tão iguais, 
que se amam e se insultam 
e se matam na realidade 
e nos filmes policiais.
Os casais são tão iguais, 
que embora jurem um ao outro 
amor eterno 
sempre querem mais.


Affonso Romano de Sant’Anna

Que te vincula corpo




que te vincula corpo
ao enxame tático dos afetos

         terror?

         deleite?

         febre?

O desejo penetra-nos no corpo
De maneira cada vez mais detalhada

             

Ana Hatherly

El cómplice

Edson Campos


Me crucifican y yo debo ser la cruz y los clavos.
Me tienden la copa y yo debo ser la cicuta.
Me engañan y yo debo ser la mentira.
Me incendian y yo debo ser el infierno.
Debo alabar y agradecer cada instante del tiempo.
Mi alimento es todas las cosas.
El peso preciso del universo, la humillación, el júbilo.
Debo justificar lo que me hiere.
No importa mi ventura o mi desventura.
Soy el poeta.


Jorge Luís Borges

***

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exato do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.


Sou o poeta.

Felicidade

Quando Stuart Elton se dobrou para tirar de sua calça, com um peteleco, um fio branco, o gesto banal, seguido como foi por um deslizamento e avalanche de sensação, assemelhou-se a uma pétala de rosa caindo, e Stuart Elton, ao se endireitar para retomar a conversa com mrs. Sutton, sentiu-se constituído de pétalas, muitas, firme e compactamente sobrepostas umas às outras, e todas avermelhadas, todas de lado a lado aquecidas, todas colorizadas por esse inexplicável brilho. Caiu pois uma pétala, assim que ele se dobrou. Nunca havia sentido isso – não  - quando era jovem, e agora, aos quarenta e cinco anos, bastou ele se dobrar para tirar um fio da calça para que impetuosamente isso descesse a vará-lo, essa bela e ordeira percepção de vida, esse deslizamento, essa avalanche de sensação, estar em sintonia com o todo, quando voltou a se aprumar recomposto -  mas o que era que ela estava dizendo?

Mrs. Sutton (arrastada pelos cabelos ainda por cima dos restolhos e pelos altos e baixos da terra lavrada da meia-idade em princípio) estava dizendo que empresários lhe haviam escrito e até marcado encontros com ela, mas que nada dera em nada. Tudo para ela se tornava assim tão difícil porque não tinha ligações normais com o teatro, já que seu pai e toda a sua família eram pessoas simples do interior. (Foi então que Stuart Elton tirou o fio da calça.) Ela parou; sentiu-se reprovada. Mas Stuart Elton, sentiu também, quando o viu dobrar-se, tinha o que ela queria. E, quando ele se reergueu, procurou desculpar-se – dizendo que falava muito de si – e acrescentou:
“ você me parece ser, de longe, a pessoa mais feliz que eu conheço”.
O que soava em curiosa harmonia com o que ele tinha pensado e com a impressão de suave deslizamento de vida seguido de reajuste ordeiro, a impressão da pétala caindo e de uma rosa completa. Mas seria isso “felicidade”? Não. A palavra tão grande não parecia encaixar-se, não parecia referir-se àquele estado de ser que espiralava em lâminas rosadas em torno de uma Luz refulgente. Fosse como fosse, disse mrs. Sutton, de todos os seus amigos ele era o que ela mais invejava. Ele parecia ter tudo; ela, nada. Ambos contaram – cada qual tinha dinheiro bastante; ela, um marido e filhos; ele, sua solteirice; ela estava com trinta e cinco anos; ele, com quarenta e cinco; ela nunca adoecera na vida e ele, como disse, era efetivamente mártir de alguma complicação interna – sonhava o dia todo em comer lagosta, mas não podia nem tocar em lagosta. Ora essa! Ela exclamou, como se enfiasse os dedos nalguma. Para ele, até sua própria doença era motivo de riso. Seria isso contrabalançar as coisas, ela perguntou? Seria senso de proporção, seria? Seria o quê, perguntou ele, sabendo muito bem o que ela queria dizer, mas acautelando-se diante dessa mulher insensata e destrutiva com seus modos estouvados, seu vigor e seus dissabores, que gostava de um rolo e travava escaramuças, que era capaz de abater e desfazer essa própria fruição tão valiosa, essa percepção do existir – duas imagens lhe vieram de relance e simultaneamente à cabeça – uma bandeira ao vento, uma truta num rio – equilibradas, balançadas, num fluxo de sensação límpida fresca clara luminosa lúcida tilintante invasiva que como o ar ou o rio mantinha de tal modo aprumado que, caso ele movesse a mão, caso se dobrasse ou dissesse qualquer coisa, desalojaria a pressão dos inumeráveis átomos de felicidade que se uniam para suspendê-lo de novo.
“Você não liga para nada”, disse mrs. Sutton. “Não se altera com nada”, ela disse desajeitadamente, lambuzando-o à volta de respingos e sobras como um homem que aqui e ali bota massa tentando assentar tijolos, enquanto ele permanecia lá bem calado, bem reservado, bem secreto; tentando extrair alguma coisa dele, uma pista, uma chave, uma orientação, invejando-o, indignando-se com ele e sentindo que, se ela, com seu alcance emocional, sua paixão, sua capacidade, suas prendas, tivesse isso acrescido a si, poderia ser de imediato a própria rival de mrs. Siddons. Ele não lhe diria; devia dizer-lhe.
“Hoje à tarde fui a Kew”, ele disse, dobrando o joelho para dar-lhe um peteleco de novo, não porque ali houvese um fio branco, mas para certificar-se, ao repetir o gesto, de que sua máquina, tal como estava, estava em ordem.
Assim alguém, perseguido numa floresta por lobos, rasgaria pedaços da própria roupa e quebraria uns biscoitos para atirá-los às infelizes feras, sentindo-se quase mas não de todo seguro em seu alto e veloz protegido trenó.
Acossado pela esfomeada alcateia que lhe vinha no encalço, preocupando-se agora com o pedacinho de biscoito que lhes tinha jogado – com aquelas palavras “Hoje à tarde fui a Kew”  -  Stuart Elton se lançou diante dos lobos em desabalada carreira para um regresso a Kew, ao pé de magnólia, ao lago, ao rio, levantando bem a mão para espantá-los. Em meio às feras ( pois o mundo parecia repleto de uivantes lobos agora), lembrou-se de pessoas que lhe faziam convites para almoçar ou jantar, ora aceitos, ora não, e da impressão que lá tivera, na faixa ensolarada de grama em Kew, de completo domínio, de ser tão simples manejar a bengala quanto escolher isso ou aquilo, ir ali ou acolá, quebrar biscoitos em pedaços e arremessá-los às feras, ler tal coisa, olhar tal outra, encontrar qualquer um ou uma, alojar-se em aposentos de algum bom companheiro – “A Kew sozinho?”, repetiu mrs. Sutton. “Só você mesmo?”
Ah, a loba gritou no seu ouvido. Ah! Suspirou ele, enquanto por um instante pensava no ah suspirado nessa tarde à beira do lago, perto de uma mulher que bordava um pano branco debaixo de uma árvore e gansos que bamboleavam passando, pois ele tinha suspirado ao ver a cena de sempre, namorados de braços dados, lá onde havia agora essa paz, a saúde que tinha sido uma vez lá ruína temporal desespero; assim de novo essa loba mrs. Sutton o fazia lembrar-se; sozinho sim; toalmente sozinho; mas ele se refez, como havia então se refeito quando os jovem passam, agarrando-se a isso, a isso, fosse lá o que isso era, e apertando-o contra si para seguir em frente, com pena deles.
“totalmente sozinho”, repetiu mrs. Sutton. E disse que era isso que ela não podia entender, num desesperado arremesso de sua cabeça coroada por cabelo escuro brilhante – ser feliz estando totalmente só.
“Sim”, ele disse.
Na felicidade há sempre essa exaltação espantosa. Não é animação; nem arroubo; nem louvor, celebridade ou saúde (ele não conseguia andar três quilômetros sem se sentir estafado), é um estado místico, um transe, um êxtase que, embora ele fosse ateu, cético, não batizado e tudo mais, tinha, suspeitava, certa afinidade com o êxtase que transformava homens em padres, que levava mulherees no vigor da mocidade a se arrastar pelas ruas com rufos engomados que mais pareciam ciclames rodeando seus rostos e lhes empedrava os olhos e os lábios; mas com uma diferença; àqueles, isso aprisionava;  a ele punha em liberdade. Deixava-o livre de toda dependência de qualquer um e qualquer coisa.
Mrs. Sutton também sentia isso, enquanto esperava que ele falasse.
Sim ele iria parar o seu trenó e saltar, deixar que os lobos se ajuntassem todos em volta, fazer afagos nos seus pobres e rapaces focinhos.
“Kew estava uma beleza – cheio de flores – magnólias azaleias”, ele nunca conseguia se lembrar dos nomes e disse assim para ela.
Não era nada que eles pudessem destruir. Não; mas se era algo que vinha de modo tão inexplicável assim, assim poderia ir-se, como ele havia sentido ao sair de Kew, ao subir a pé beirando o rio até Richmond. Um galho, por que não?, poderia a cor se alterar; o verde tornar-se azul; ou uma folha estremecer; e isso já seria bastante; sim; já seria bastante destroçar-se, despedaçar-se, destruir a fundo essa espantosa coisa o milagre, esse tesouro que foi dele tinha sido dele era dele deveria ser sempre dele, pensou ficando impaciente e ansioso e sem pensar em mrs. Sutton deixou-a bruscamente e andou atravessando a sala para apanhar um cortador de papel. Sim; tudo bem. Ele ainda o tinha.


Felicidade, Virgínia Woolf

Cilada




Quando o dia amanhece
Preguiçoso, sem pressa,
É meu coração que se apressa
Com a simples lembrança tua.
Quem sabe não sonhas comigo,
Não me desejas
Nesse sono que nunca chega?!
Quem sabe, dormindo,
Teus lábios não sorriem
Cheios de mistério?
Quem sabe teu rosto iluminado
Não me procura ao teu lado
E num gesto impensado
Não beijas o travesseiro?!
Ah!...
O dia chega de mansinho
E encontrastes no meu peito um ninho
Onde se repousar,
Me confortar...
Ah!...
Sou eu quem sorrio
Pro nada!...
A vida me pregou uma peça!...
E amo estar nessa cilada
E na madrugada calada
Sonhar que estás comigo
E me surpreender,
Quando me refaço,
De ter um travsseiro entre os braços!...


Letícia Thompson

domingo, 2 de setembro de 2012

Pergunta-me

Chris Nicholls Photography 


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto

Paulo Leminski:



a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa

***

    hoje à noite
até as estrelas
    cheiram a flor de laranjeira


   
eu te fiz
agora

sou teu deus
poema

ajoelha
e 
me
adora


    
    tarde de vento
até as árvores
    querem vir para dentro

***
    
    lua à vista
brilhavas assim
    sobre auschwitz?


     
só
lamente
uma
        vez

***
   
    minha alma breve breve
o elemento mais leve
    na tabela de mendeleiev
   

       celeumas   luas
onde se lê uma
    leiam-se duas


Paulo Leminski

Inês Pedrosa, Fazes-me falta





Afogo-me nos livros que me deixaste, nos muitos livros que amei por causa de ti. Livros radiantes onde outros tinham escrito os teus sonhos e pesadelos, as tuas inquietações. Sublinho-Lhes as poucas frases que tinham ficado por sublinhar. Mas nenhuma delas me consola, agora apenas literatura, na mortal arrumação da História. Devo-te várias vidas, as vidas múltiplas que vêm nos livros, a minha vida em rede, mapa de atalhos nervosos que através dos livros ganhou sentido. Devo-te a minha juventude recuperada em concertos de rock ou em noites brasileiras no Coliseu. Devo-te o conhecimento da dança que me aqueceu o corpo. Devo-te sobretudo a ilusão do desejo nos olhos das mulheres que atraías para mim - ilusão redentora para os homens da minha geração, criados na obrigação religiosa do amor. Tu, a católica militante, ensinaste-me que não é pecado procurar a pura partilha do desejo - ensinaste-me a ver pureza em tudo ao meu redor. Apareces-me agora em sonhos, chorando, pedindo-me desculpa da tese que me copiaste. Quero responder-te, no sonho, mas a voz não sai. E há muita gente, perco-te. Estamos numa festa enorme, numa montanha verde semeada de ruínas onde surgem todos os nossos amigos e conhecidos. Quero dizer-te só isto: se por uma vez pude melhorar a orquestração da tua melodia, quem tem de te ficar grato sou eu.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

Para quê?!



Tudo é vaidade neste mundo vão… 
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada! 
E mal desponta em nós a madrugada, 
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção 
Que nosso peito ri à gargalhada, 
Flor que é nascida e logo desfolhada, 
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d´amor? Pra quê?!… Tristes vaidades! 
Sonhos que logo são realidades, 
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca! 
Beijos d´amor que vão de boca em boca, 
Como pobres que vão de porta em porta!…


Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Sonnet 17

Fernando Bagnola



Who will believe my verse in time to come,
If it were fill'd with your most high deserts?
Though yet, heav'n knows, it is but as a tomb
Which hides your life and shows not half your parts.
If I could write the beauty of your eyes,
And in fresh numbers number all your graces,
The age to come would say, "This poet lies:
Such heav'nly touches ne'er touch'd earthly faces."
So should my papers, yellow'd with their age,
Be scorn'd, like old men of less truth than tongue,
And your true rights be term'd a poet's rage,
And stretchèd metre of an antique song.
But were some child of yours alive that time,
You should live twice — in it and in my rhyme.


***


Quem crerá nos meus versos no futuro,
Plenos que estão todos de teus altos merecimentos?
Apesar de bem o saberem os céus, serem só um túmulo
Que oculta mais tua vida, e não revela sequer a metade do que vales.
Se transmitir pudesse eu a beleza dos teus olhos,
E em números nunca dantes vistos, chegar a enumerar todas as tuas graças,
As épocas vindouras diriam por certo, como mente este poeta,
Tais coisas celestiais jamais foram propriedades de rostos terrenos
Assim os meus papéis, amarelados com o tempo,
Seriam muito zombados, como belhos mais cheios de lábia que verdade;
E tudo que te é devido, chamado de loucura de poeta,
E o metro forçado de algum delírio antigo
Mas se algum filho teu viesse então
Viverias duas vezes; - tanto nele, quanto nos meus versos.


William Shakespeare

Jack Kerouac, Viajante solitário




Que vitória, a vitória de Cristo! Vitória sobre a loucura; a doença da espécie humana. “Matem-no!”
[...]
Cristo em Sua agonia, rogai por mim.
A estátua mostra Seu corpo pendendo da cruz pelas mãos pregadas, com a perfeita inclinação do corpo dada pelo artista, escultor devoto que trabalhou com todo seu coração, com a compaixão e tenacidade de um Cristo – um meigo, quem sabe índio, católico espanhol do século 15, entre ruínas de adobe e barro e a fétida fumaça de meio milênio indígena na América do Norte, vislumbrou esse statuo del Cristo e o instalou na nova igreja que, hoje, na década de 50, passados quatro ou cinco séculos, partiu parte do telhado onde algum Michelangelo espanhol pintou querubins e figuras angelicais para a inspiração dos que olhavam para o alto nas manhãs dominicais enquanto o bondoso padre explicava detalhes das leis religiosas.


Jack Kerouac, Viajante solitário