quarta-feira, 20 de abril de 2022

ROMANCE LIII ou DAS PALAVRAS AÉREAS



 Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota...


A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora...

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...


Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora...

— e estais no bico das penas,

    e estais na tinta que as molha,

    e estais nas mãos dos juízes,

    e sois o ferro que arrocha,

    e sois barco para o exílio,

    e sois Moçambique e Angola!


Ai, palavras, ai, palavras,

íeis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra...


Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois, agora?


— Acusações, sentinelas,

bacamarte, algema, escolta;

— o olho ardente da perfídia,

a velar, na noite morta;

— a umidade dos presídios,

— a solidão pavorosa;

— duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

— e a sentença que caminha,

— e a esperança que não volta,

— e o coração que vacila,

— e o castigo que galopa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

— sois madeira que se corta,

— sois vinte degraus de escada,

— sois um pedaço de corda...

— sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa...


Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem...

— sois um homem que se enforca!


Cecília Meireles