O leque do corpo só se abre inteiramente
no leito oceânico dos amantes
Mas não poderão as palavras subir aonde a
luz existe
e que não é ar mas ondeia como um corpo
que pode perecer como uma lua mas ser
tão azul
como uma guitarra do mar?
Se as sílabas podem tocar
suavemente a pele translúcida
dos altos pássaros e sorrir como
nuvens
ou ser o fruto que dorme na terra
dourada sob a chuva ligeira
talvez sejam mais do que plumas ou
diminutas rosas
e cantem no ouvido de veludo verde
da terra
enquanto a boca se rende como um
mar entreaberto
Talvez o seu leque incendeie a espada de sombra
quando nos últimos beijos a luz se despede
e a língua branca da página como um barco do nada
atravessa o muro de cinza e como um pássaro sedento
eleva o seu arco azul sob o qual a concha do mar resplandece
António Ramos rosa,
in "As Palavras"( Campo das Letras, 2001)