Tenho uma vontade imensa de chorar. Chorar pelo que houve de bom entre nós, e pelo que houve de eterno. Chorar pelos olhares telepáticos que trocávamos, pelas mãos dadas no cinema, pelas imitações que ele fazia de mim e eu odiava, mas que era um sinal de que ele ainda me via. Chorar pelo primeiro beijo, na beira da praia, e pelo último, que talvez ainda não tenha sido dado. Chorar porque não o amo mais, ele tampouco a mim, dois adultos que decidiram seus destinos sem facadas, sem tiros e sem vulgaridades, chorar por essa sensatez, esse racionalismo, essas cicatrizes que ficam mesmo assim, chorar pelo instante em que os dois, juntos, desligam-se da tomada e tudo fica escuro.
Martha Medeiros
