sábado, 5 de junho de 2010

Nello Lovine


Macia selva que o teu corpo tapeteia.

Fina ramagem onde o toque se aveluda.

Vaivém de vento que penteia e despenteia.

Sensível manta que te cobre e te desnuda.

Pouso de face — a tua face — em minha face,

passando, aos poucos, a carinhos circulares.

Corta o silêncio abafadiço roçar: dá-se

a sinfonia dos murmúrios capilares.

Miro a penugem que recobre a tua orelha,

e os meus ouvidos, feito dedos, passam leves.

Cílio teus cílios, sobrancelho a sobrancelha,

e um humm e um ai e um ai e um humm sussurram breves.

Plumagens raras — tua nuca envolta em rama.

O meu pescoço quer o teu e tu mo encostas.

Tu te declinas à maneira de quem chama.

Nas mãos reversas sei da relva em tuas costas.

O que me é tátil à minha boca ora transfiro,

visto que assim, se sei do toque, sei do gosto.

E mais eu sei se pela boca te respiro,

pois menos sei qual do teu pelo me é posto.

Pelos que eu gosto: os que cercam teus mamilos,

onde em percursos labiais circunavego.

Tal o prazer tê-los assim, assim senti-los,

que a minha boca no teu seio às vezes nego.

Pelos que eu amo: os da barriga, feito seta,

que a boca assanha indo e vindo ao teu umbigo.

Como uma onda, o teu quadril se me projeta,

surfo teu ventre e nos teus pelos eu prossigo.

Pelos que eu quero: os teus pelos inguinais,

onde, bem sei, se me demoro, tu te adias.

Desses eu passo a outros pelos, capitais,

e em tais arranho a minha barba de dois dias.



Antoniel Campos