quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O mundo de Sofia – Espinosa


– Mas você vai pelo menos responder a uma última pergunta. Imagine duas árvores bem antigas num grande jardim. Uma cresceu num local ensolarado, com acesso a um solo fértil e água em abundância. A outra, num solo estéril, sob a sombra. Qual delas, você acha, é a árvore maior? E qual delas terá dado mais frutos?

– Claro que a árvore que teve as melhores condições.

– Segundo Espinosa, essa é a árvore livre. Ela teve liberdade total para desenvolver suas possibilidades intrínsecas. Se, porém, se tratar de uma macieira, ela não terá tido possibilidade de dar peras ou ameixas. O mesmo vale para nós, seres humanos. Podemos retardar nosso desenvolvimento e nosso crescimento pessoal, por exemplo, devido a condições políticas. Pressões externas são capazes de nos tolher. Somente quando “libertamos” as possibilidades que nos são inatas é que vivemos como homens livres. Mas somos tão governados pelo nosso potencial interno e pelas circunstâncias exteriores quanto aquele menino da Idade da Pedra no vale do Reno, o leão na África ou a macieira no jardim.

– Já estou prestes a desistir.

– Espinosa enfatiza que somente um único ser é “causa completa e absoluta” de si mesmo e pode agir em total liberdade. Só Deus ou a natureza é a manifestação livre, “não causal”, desse processo. Um homem pode até aspirar à liberdade de viver imune às atribulações externas. Mas jamais vai experimentar de fato o “livre-arbítrio”. Não podemos determinar tudo que acontece com nosso próprio corpo, que é um modus do atributo extensão. E não possuímos uma “alma livre”, que de resto está aprisionada em um corpo mecânico.


Jostein Gaarder, O mundo de Sofia 


 Podes ficar aqui?

Não vás embora,

precisarei de mais alguns minutos,

horas, dias, semanas, meses, anos,

eternidades para te esquecer.


Fernando Pinto do Amaral


São feitas de palavras as palavras

e da melancolia da 

ausência da prosa e da ausência da poesia.


É o que falta que fala

do lugar do exílio

do sentido e da falta de sentido.


Tudo o que te disser

tudo o que escrever

sou eu a perder-te,


cada palavra entre

o que em mim é corpo

e é nela sopro.


 Manuel António Pina

 


Livra-me dos mundos nascidos do ódio, salva-me da negra infinitude sob a qual morrem meus céus. Acende um raio de luz nesta noite e que saiam as estrelas perdidas na densa névoa de minha alma. Mostra-me o caminho para mim mesmo, abre-me uma senda em minha espessura. Desce em mim com o sol e dá início a meu mundo.

Emil Cioran (In: "O Livro das Ilusões")



nasce agora. meu amor. absorve o hálito. de tudo o que é começo. a primeira ranhura. do ar. a primeiro desfalecimento. do olhar. o novelo da chuva. o sangrar. das fontes. grava. no cordão umbilical. as iniciais do meu nome. o mesmo tipo de letra. do cinto que compraste. para me trazeres afivelada a ti. vem para a rua. perde-te. diz-me que não consegues governar as mãos. ignora as fronteiras. do razoável. faz de conta. que ainda não aprendeste a viver. a desilusão. a tristeza. marca comigo. o encontro inicial. sente como é. o estalar do sangue no rosto. o que é não saber. pronunciar ainda: gosto-te. dá-me. a provar o suor dos ombros. antes de nomeares o que quer que seja. deixa as lágrimas despenharem-se. chora. o alegre arrepio. o meu corpo. o teu corpo. ainda estão. por desalfandegar. entregamo-nos. no porão escuro. à festa tribal.ao contrabando das carícias. no alto mar. onde. ainda. não há leis. nem rótulos. que restrinjam. o desembarque. dos amantes. sem vínculo. nasce agora. meu amor. e. de olhos fechados. toca-me. antes que o conhecimento. envelheça o desejo.


Alberto Serra 



já leste as notícias hoje?


sim. li 

na primeira página 

do teu corpo. 

que o mundo

ia acabar.

colei-me à pele 

à escuta

do noticiário 

em onda curta. 

se chegares 

embrulhada em jornal 

de parede

antes da catástofre

talvez ainda

vá a tempo

de estrangular

as gargantas

de fogo.

e ler-te 

de alto a baixo

com lentes

de copista.



adorava ser lida assim

mas só se for

uma reportagem nocturna

sim.

ler-te à noite.

na hora nervosa

do fecho dos jornais

quando os ardinas

atam nós

em múltiplas

oferendas

de notícias.

a última hora

em tinta

fresca.


Alberto Serra 

segunda-feira, 13 de novembro de 2023


talvez não fosse para ser dito assim,
em conversas breves de longas frases, e nem
o que se diz se ouve como deve ser nem o que é
devia ser dito. Talvez não fosse para pôr
uma adversativa à cabeça, como se o chapéu
não pudesse esconder o pensamento, ou
o que se pensa não coubesse na própria cabeça,
e saísse pelos olhos para que todos o vissem. Mas
o que é dito assim, e não se esconde, tem
a cor desses olhos, é húmido como esses lábios,
tem a brancura da pele que se toca quando
as conversas se acabam, e as longas frases
ficaram pequenas a esta distância em que
as lembro, sem o peso do tempo, sem
a distração das mãos.

Nuno Júdice 


 Se um dia me vires triste,

Não me digas nada.

Apenas ama-me.

Se você me conhecer

Enquanto estou sozinho na noite escura,

Não me peças nada.

Anda comigo.

Se olhares para mim sem que eu te veja,

Não penses em nada.

Por favor, não me entenda mal.

Se é o amor que vc precisa

Não tenhas medo,

Ama-me.

Depois, quando te cansares de mim,

Não digas nada.

Mas, por favor, lembra-te de mim.


Nizar Kabbani


 Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.

Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.

Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.

As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.

O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.


António Ramos Rosa, in "corpo de argila" 


 "Quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece."

(der sich die Fähigkeit erhält, das Schöne zu erkennen, wird nie alt werden.)


 Franz Kafka

domingo, 12 de novembro de 2023


Não pense como os seres civilizados, 

Não quero você pensando como os civilizados 

A civilização perdeu seus instintos 

Ama-me como um terremoto 

Como a morte inesperada 

Deixe seus seios arderem em brasa, 

Ataca-me como uma loba faminta e perigosa (...)


Nizar Kabanni


 «Pero cuando vea al mar. Cuando contemple sus extrañas olas que danzan y arrojan espuma. Yo veré el mar. Un verde infinito perfumará mis ojos. El mar. El mar y su tiempo preñado de pequeños tiempos, y su canto caído del infierno, su humilde reconciliación de tierra y cielo. Mon Dieu… Y cómo me desnudarán las aguas, y cómo me acariciarán. El mar. El mar o la salvación. El mar y su retorno a sí mismo, a un sí mismo que no es mar, que no es nada».

Alejandra Pizarnik - Diarios