domingo, 11 de julho de 2010


os rios do teu corpo – o rio dos corpos
país de latejos – astros infusórios répteis 
entrar em ti – torrente de cinário sonâmbulo 
país de olhos fechados – maragem de genealogias 
água sem pensamentos – jogos conjugações jograis 
entrar em mim – sujeito e objeto abjeto e absolto 
ao entrar em teu corpo – rio de sois
país de espelhos em vigília – “as altas feras de luzente pele” 
país de água acordada – roda o rio seminal dos mundos 
na noite adormecida – o olho que o olha é outro rio

me vejo no que vejo – é minha criação isto que vejo 
como entrar por meus olhos - perceber é conceber
num olho mais límpido – água de pensamentos
me olha o que eu olho – sou a criatura do que vejo 

delta de braços do desejo – água de verdade
num leito de vertigens – verdade de água

A transparência é o que resta ao fim de tudo. 

Octavio Paz - "Blanco" 
(trad. Haroldo de Campos)

o começo
        o cimento
a semente
         latente
a palavra na ponta da língua
inaudita           inaudível
                          ímpar
grávida                 nula
          sem idade
a enterrada de olhos abertos
inocente           promíscua
         a palavra
sem nome            sem fala


Sobe e desce
Escala de escapulário,
A linguagem desabitada.
Sob a pele da penumbra
Lateja uma lâmpada.
                   Supervivente
Entre confusões taciturnas,
                                                                  Ascende
Num caule de cobre
                   Resolvida
Em folhagem de lucidez:
                       Sustento
De realidades derruídas.
                       Ou adormecido,
Ou extinto,
           Alto a pino
(Cabeça em lança),
                 Um girassol
Agora carbonizado
                 Sobre uma jarra
De sombra.
          Em palma de mão
Fictícia,
         Flor
Nem vista nem pensada:
                      Ouvida
Aparece
       Amarelo
Cálice de consoantes e vogais
Incendiadas.


no muro a sombra do fogo       chama rodeada de leões
no fogo tua e minha sombras    leoa no círculo das chamas
                               alma animando sensações
o fogo te ata e desata      
Pão Graal Áscua                frutos de fogos-de-bengala
                     Mulher    os sentidos se exabrem
teu riso - nua                 na noite magnética
entre os jardins da chama
                Paixão de brasa compassiva


Pulso, impulso,
Ondada de sílabas úmidas.
Sem dizer palavra
Escurece-me a fronte
Um pressentir de linguagem
Paciente paciente
(Livingston no rigor da seca)
River rising a little
O meu é rubro e se esgota
Entre saibros chamejantes:
Castelas de areia, naipes rotos,
E o hieróglifo (água e brasa)
No peito do México tombado.
Daqueles lodos sou pó.
Rio de sangue,
           Rio de estórias
De sangue,
          Rio seco:
Boca de manancial
Amordaçado
Pela conjura anônima
Dos ossos,
Pela sisuda penha dos séculos
E dos minutos:
              Linguagem
É expiação,
           Propiciação
A quem não fala,
                Emparedado,
Dia a dia
         Assassinado,
O morto inumerável.
               Falar
Enquanto os outros trabalham
É polir os ossos,
                 Aguçar
Silêncios
         Até a transparência,
À ondulação,
            Ao corusqueio,
Até a água:

os rios do teu corpo           o rio dos corpos
país de latejos                astros infusórios répteis
entrar em ti                   torrente de cinábrio sonâmbulo
país de olhos fechados         maragem de genealogias
água sem pensamentos           jogos conjugações jograis
entrar em mim                  sujeito e objeto abjeto e absoluto
ao entrar em teu corpo         rio de sóis
país de espelhos em vigília    "as altas feras de luzente pele"
país de água acordada          roda o rio seminal dos mundos
na noite adormecida            o olho que o olha é outro rio

me vejo no que vejo            é minha criação isto que vejo
como entrar por meus olhos     perceber é conceber
em um olho mais límpido        água de pensamentos
me olha o que eu olho          sou a criatura do que vejo

delta de braços do desejo      água de verdade
num leito de vertigens                        verdade de água
       A transparência é o que resta ao fim de tudo


Branco (fragmento) - Octavio Paz - Tradução: Haroldo de Campos