sexta-feira, 16 de julho de 2010

James Joyce, O retrato do artista quando jovem

Desde tempos remotos tinham os homens olhado assim para o alto, tal como ele estava olhando, na vibração do vôo das aves. A colunata, acima dele, fê-lo pensar vagamente num antigo templo, e a haste de freixo sobre a qual se apoiava fatigadamente lhe sugeriu a lembrança do recurvo cajado dum adivinho. Uma sensação de medo ante o desconhecido foi ao âmago do seu enfado. Um medo de símbolos e de prodígios e do homem com cara de falcão – de quem ele usava o nome – remontando do seu cativeiro em velas sinuosas de vime. Thoth, o deus dos escritores, que escrevia com um junco sobre uma tabuinha e que carregava sobre a sua estreita cabeça de íbis a lua crescente.
Sorriu ao pensar na imagem do deus, pois isso o levou a pensar num juiz de narigão e de chinó a pôr vírgulas nos autos que lia, e Stephen estava certo de que não se lembraria do nome do deus, apenas sabendo que era um nome assim como o dum palavrão em irlandês. Isso não passava de mera loucura. Mas não seria por causa de tal loucura que ele estava a ponto de deixar para sempre a casa de oração e de prudência onde tinha nascido, e aquela ordem de vida da qual promanava?
Os pássaros voltaram, com seus gritos agudos por sobre o beiral saliente da casa, voando, muito negros, contra o ar que esmaecia. Que aves seriam aquelas? Talvez fossem andorinhas acabadas de chegar do sul. E ele, pois, estava para se ir, ao passo que elas eram pássaros indo e vindo, continuamente, edificando um lar perene sob as calhas das casas dos homens e sempre a deixarem o lar que tinham construído para vagabundearem.

Inclinai mais um pouco o rosto, Oona e Aleel,
Para que eu fique assim, como a andorinha a olhar
Do ninho do telhado o resplendor de abril,
Antes que a chame a voz do tumultuoso mar.


Uma alegria líquida e macia, como o ruído de muitas águas, derramava-se por sobre a sua memória; sentia no coração a doce paz dos espaços silenciosos, tênuemente esmaecidos por sobre as águas. A doce paz do silêncio oceânico; a doce paz das andorinhas voando através do mar escuro, por cima das águas oscilantes.
Uma alegria líquida e macia derramava-se por sobre as palavras onde as vogais maleáveis, roçando sem ruído, se desmanchavam, enrolando-se e desfazendo-se, a sacudirem sempre suas brancas campainhas de ondas em mudas baladas, em mudos dobres e em exclamações suaves como desmaios; e sentia que o augúrio que havia discernido naquelas aves, vagando como flechas, e naquele céu de espaços claros acima dele, tinha vindo do seu coração como um pássaro que vem dum torreão, mansa e velozmente.
Símbolo de partida ou de isolamento? Os versos vinham como melopéia ao ouvido da sua memória; compunham vagarosamente, diante dos seus olhos evocadores, a cena do vestíbulo na noite de inauguração do teatro nacional. Ele estava sozinho, ao lado da varanda, olhando com uns olhos mortos para a cultura de Dublin nos balcões, para os espalhafatosos cenários e para os bonecos humanos emoldurados pelas lâmpadas ofuscantes do palco. Um burlesco policial suava atrás dele, prestes a entrar em cena. As vaias, a pateada e os gritos de apupos passavam como rudes rajadas pela portaria, vindo dos colegas estudantes.
- Um libelo contra a Irlanda!
- Importação alemã!
- Blasfêmia!
- Não vendemos nunca a nossa crença!
- Nenhuma mulher irlandesa jamais fez isso!
- Não queremos nenhum ateu amador!
- Chega de influências budistas!

James Joyce, O retrato do artista quando jovem