quarta-feira, 20 de abril de 2022

- Vida a Crédito

 "Nunca foi muito difícil reunir provas suficientes para comprovar a suspeita de que a maioria dos ganhos tende a ir para os egoístas, enquanto os preocupados com o bem-estar dos outros são com frequência condenados a contabilizar suas perdas. Reunir essas evidências talvez fique mais fácil a cada dia. Como observa Lawrence Grossberg, 'torna-se cada vez mais difícil encontrar espaços em que é possível se preocupar com algo o bastante, ter bastante fé de que aquilo importa, de modo que se crie um compromisso com aquilo e uma dedicação àquilo'. Grossberg cunhou a expressão niilismo irônico. As pessoas que adotam esse tipo de atitude podem, se pressionadas, descrever o raciocínio por trás de seus motivos da seguinte forma:

Sei que tirar vantagem é errado, e sei que estou tirando vantagem, mas essa é a maneira como as coisas são, assim é a realidade. Sabe-se que a vida, e cada escolha, é uma farsa, mas esse conhecimento tornou-se tão universalmente aceito que já não existe qualquer alternativa. Todo mundo sabe que todo mundo tira vantagem, então todo mundo faz isso, e, se eu não fizesse, no final pagaria por ser honesto.

Outras reservas ainda mais fundamentais foram elaboradas contra a hipótese dos filósofos, no entanto. Por exemplo, se você decidir ser bondoso com os outros porque espera uma recompensa por sua bondade, se a desejada recompensa é o motivo de suas boas ações, se 'ser amável e bom para os outros é um resultado do cálculo de seus prováveis ganhos e perdas, então é inevitável perguntar: sua maneira de agir é a manifestação de uma atitude moral ou, em vez disso, apenas outro caso de comportamento egoísta e mercenário? E há uma dúvida ainda mais profunda e verdadeiramente radical: o bem pode ser uma questão de argumentação, persuasão, debate, convencimento, decisão sobre o que é lógico? A bondade com os outros é resultado de uma decisão racional e pode ser provocada por um apelo à razão? A bondade pode ser ensinada? Os argumentos a favor de respostas positivas e respostas negativas a essas questões têm avançado. Nenhum deles, entretanto, até agora obteve autoridade indiscutível. O júri ainda está deliberando." 


- Zygmunt Bauman