quarta-feira, 20 de abril de 2022

 


“Que seja claro o teu céu, que seja luminoso e sereno o teu doce sorriso e bendita sejas pelos minutos de felicidade e de alegria que deste a outro coração solitário e agradecido. Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Não será isso o bastante para preencher toda a vida de um homem!” 

“- (…) Sou um sonhador; tenho tão pouca vida real, que momentos como estes que presentemente vivo, por demais preciosos, não posso deixar de os repetir nos meus sonhos. Sonharei consigo toda a noite, toda a semana, todo o ano. Amanhã sem falta, voltarei aqui, a este lugar, a esta mesma hora, e sentir-me-ei feliz por recordar o dia de hoje. A partir de agora, este lugar é querido aos meus olhos. Existem dois ou três locais assim em Petersburgo.” 

“- Existem em Petersburgo (…) alguns lugares bastante insólitos. Dir-se-ia que nesses sítios não penetra mesmo o sol que brilha para todos os outros petersburgueses, mas sim um sol novo, encomendado de propósito para semelhantes espaços e que emite uma luz especial, única. Nesses recantos (…) leva-se uma vida completamente diferente, em nada semelhante à que bule à nossa volta, uma vida que poderia existir em mundos distantes e desconhecidos, e não aqui, entre nós, nestes tempos sérios, excessivamente sérios, em que vivemos. Essa vida é uma mistura de qualquer coisa do mais puro fantástico com o mais fervoroso ideal, combinado, ao mesmo tempo (…) com elementos grosseiramente prosaicos e comuns, para não dizer incrivelmente vulgares. (…) Vai ouvir que nesses lugares recônditos habitam seres estranhos, os sonhadores. O sonhador, para o definir de uma forma mais precisa, não é uma pessoa, sabe?, mas uma espécie de criatura do género neutro. Refugia-se, de preferência, nalgum canto inacessível, como se fosse sua intenção ocultar-se até mesmo da luz do dia, e, uma vez ali enfiado, deixa-se ficar na sua carapaça; à imagem do que acontece com o caracol, ou, pelo menos, torna-se parecido com esse curioso bicho que é ao mesmo tempo animal e casa e que dá pelo nome de tartaruga.” 

“Um novo sonho: uma nova felicidade! Nova dose de requintado e voluptuoso veneno! Oh, que lhe importa a vida real? Aos seus olhos enfeitiçados, a Nástenka e eu vivemos uma vida tão ociosa, tão parada e desprezível, andamos por demais descontentes da nossa sorte, fartos da nossa existência! (…) E com efeito, com quanta ligeireza e naturalidade se cria esse mundo fantástico, de faz-de-conta! Como se não fosse uma ilusão! A bem dizer, alturas há em que se sente impelido a acreditar que essa vida não é uma exaltação dos sentidos, uma miragem, um equívoco da imaginação, mas algo real, autêntico, palpável.” 

“Sentimos que, por fim, a fantasia, esta inesgotável fantasia, dá sinal de estar cansada, esgotada numa permanente tensão, porque amadurecemos e começamos a deixar para trás os nossos antigos ideais: estes desmoronam-se em bocados e desfazem-se em pó, e, se não existe outra vida, é preciso construí-la a partir desses mesmos fragmentos. Contudo, a alma pede e deseja outra coisa! Em vão o sonhador busca no meio dos seus velhos sonhos, como entre a cinza, à procura de uma ténue centelha para reavivar a fantasia, para inflamar um fogo novo no seu coração arrefecido e ressuscitar nele tudo o que dantes lhe era tão caro, que lhe fazia ferver o sangue e lhe tocava a alma, que lhe fazia chegar lágrimas aos olhos, iludindo-o maravilhosamente.” 


Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas