Não há nada tão enganador, e por isso mesmo tão atraente, quanto uma superfície calma. O mar, sob a luz cálida de um dia de verão, ou o céu azul, banhado na luz difusa e ambarina de um sol de outono, são agradáveis ao olhar. Porém, quão diferente se torna a cena quando a cólera violenta dos elementos desperta mais uma vez as discórdias da confusão, quão diferente se torna o oceano cuspindo espuma daquele mar plácido e calmo que resplandecia e ondulava jovialmente. Mas os melhores exemplos da fragilidade das aparências são o Homem e a Fortuna. Um olhar bajulador e servil, uma atitude altiva e arrogante, ocultam igualmente a falta de caráter. A Fortuna, esse brinquedinho fulgurante, cujo bruxuleio esplêndido fascinou e enganou tanto o orgulhoso quanto o pobre, é tão vacilante quanto o vento. Existe, entretanto, sempre 'alguma coisa' que nos revela o caráter do homem. É o olho. Esse traidor que nem mesmo a mais firme vontade do traiçoeiro vilão poderá subjugar. É o olho que nos revela a culpa ou a inocência, os vícios ou as virtudes da alma. É a única exceção ao provérbio: 'Não se deve confiar nas aparências'. Em todos os outros casos, é preciso buscar o valor verdadeiro. O manto da realeza ou da democracia nada mais é do que a sombra que o 'homem' deixa atrás de si. 'Oh!, quão infeliz é o pobre homem que depende dos favores do príncipe.' A onda inconstante da sempre mutável Fortuna traz ao mesmo tempo o bem e o mal. Como nós parece bela quando anuncia o bem, é tão cruel quando é mensageira do mal! O homem que depende do humor de um rei é apenas uma rolha no mar. Tal é o vazio das aparências. O hipócrita é o pior de todos os vilões, pois esconde, sob a aparência da virtude, ompior dos vícios. O amigo que é somente escravo da Fortuna se humilha e se arrasta aos pés da riqueza. Mas o homem que não tem outra ambição, outra riqueza ou outro luxo que a própria satisfação não pode esconder a alegria da felicidade que flui de uma consciência limpa e de um espírito sereno.
James Joyce
