sábado, 6 de setembro de 2014

Edital



Por este instrumento faço saber
que é verdade
o que de mim dizem.
É verdade o que alardeiam os inimigos
e os amigos enfatizam.
Sou tudo o que me pespegam.
Quando me acanalham, é verdade,
e é verdade
-quando me embalam.

Jovem, indignado,
tentei com engenho e arte
separar do trigo
a outra parte.
Já não consigo. Renegar o joio
é ter o trigo empobrecido.

Quando me atiram pedras, é justo.
Quando me atiram estrelas, quem sabe?
Não vou de mim, de vós, viver a contrapelo.
Sou como Ulisses
na ida e no regresso:
-a soma dos descaminhos
a contradição em progresso.


Affonso Romano de SantAnna, in “Poesia Reunida”