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Anna Razumovskaya |
Ele me pegou olhando pra ele daquele jeito
ele me pegou olhando pra ele com aqueles olhos
bem na porta do camarim.
Ele me pegou assim
olhando pra ele e o roteiro de pecado é o que se lia nele
naquele olhar safado
que não dava nem pra disfarçar
mas que vinha de mim.
É que quando comecei a olhar
ele estava olhando pro lado
ele estava com o rosto virado pra lá.
Então meu olhar se sentiu autorizado a olhar.
Ele me pegou explícita.
A filha da puta da janela da alma
deu uma super vacilada
e quando ele bruscamente se virou pra cá
me flagrou na indecência muda daquele olhar.
Ah, meu Deus
não fosse aquilo camarim
e fosse ainda o palco
ao invés de eu estar agora
constrangida a escrever esse poema.
Diria pra ele
segura de mim à beça:
“Meu amor, isto é uma cena,
Faz apenas parte da peça.”
Mas não.
Camarim já, e não palco ainda
e aquele a quem eu olhava
me viu a mirá-lo
me sentiu
e viu que eu o desejava.
Não era pra ele ver,
não estava nos meus planos
e agora?
Ah, diretor, diretor
Interrompa o ensaio.
Ó, temporal, cancele o espetáculo!
Ó, acaso, misterioso amigo dos amantes,
Feche só por esta noite o teatro!
Então camarim e palco
se misturarão,
eu confessarei meu amor, minha paixão,
direi que aquele meu olhar
foi pura força de interpretação.
Elisa Lucinda