sexta-feira, 6 de maio de 2011


Ele deve ter passado muito tempo sem conseguir estar com ela, sem poder lhe dar o herdeiro das fortunas. A lembrança da menina branca devia estar lá, oculta, o corpo, lá, atravessado na cama. Ela deve ter continuado por muito tempo como a soberana de seu desejo, a referência pessoal à emoção, à imensidão da ternura, à sombria e terrível profundeza carnal. Depois veio o dia em que isso deve ter sido possível. Aquele dia justamente em que o desejo pela menina branca deve ter sido tão grande, a tal ponto insuportável , que ele foi capaz de reencontrar sua imagem inteira como numa intensa e imensa febre e penetrar a outra mulher com esse desejo por ela, a menina branca. Ele deve ter se reencontrado pela mentira dentro dessa mulher e, pela mentira, ter feito o que as famílias, o céu, os ancestrais do norte esperavam dele, isto é, o herdeiro do nome.

Talvez ela soubesse da existência da jovem branca. Ela tinha criadas nativas de Sadec que conheciam a história e devem ter comentado. Ela não devia ignorar sua dor. As duas deviam também ter a mesma idade, dezesseis anos. Naquela noite terá visto o marido chorar? E, vendo, terá lhe oferecido consolo? Uma menina de dezesseis anos, uma noiva chinesa dos anos 30 poderia consolar sem ser indecorosa esse tipo de dor adúltera cujo ônus recaía sobre ela? Quem sabe? Talvez se enganasse, talvez tenha chorado com ele, sem uma palavra, o resto da noite. E depois teria vindo o amor, depois das lágrimas.

Ela, a jovem branca, nunca soube acerca desses fatos.

Anos após a guerra, após os casamentos, os filhos, os divórcios, os livros, ele tinha vindo a Paris com a mulher. Ele lhe telefonara. Sou eu. Ela o reconhecera pela voz. Ele dissera: queria apenas ouvir sua voz. Ela: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, sentia medo com antes. Sua voz de repente tremeu. E com o tremor, de repente, ela reencontrara o sotaque da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soube pela mãe dela, que ele havia encontrado em Saigon. E também sobre o irmão mais moço, que ele tinha ficado triste por ela. E depois não havia mais o que dizer. E depois ele disse. Disse que era como antes, que ainda a amava, que nunca conseguiria deixar de amá-la, que a amaria até a morte.


Marguerite Duras, O Amante, p. 97-99