Escrevi lentamente, mui lentamente; antes de assinar, reli a carta, aperfeiçoei os traços da caligrafia, acrescentei pontos, acentos e pus a data: 15 de maio, 7 horas da manhã...
Mas, ainda que assinada, datada e finalmente fechada, não deixou de ser uma carta incompleta... Tornarei a abri-la?... eis-me subitamente tiritante, como se, ao fechar este envelope, houvesse vedado uma janela luminosa da qual me viesse ainda algum calor...
É uma manhã sem sol, e o frio do inverno parece haver-se refugiado neste pequeno salão atrás destas persianas trancadas há quarenta dias...
Sentada a meus pés, minha cachorra, muito quieta, fita a porta: espera. Espera alguém que não mais virá... Ouço Blandine mexer com panelas, sinto o cheiro de café moído: a fome contrai-me desagradavelmente o estômago. Um pano gasto cobre o divã, uma umidade azulada embaça o espelho... Não me esperavam tão cedo. Tudo está coberto pelas velhas capas, pelo bolor, pela poeira, tudo conserva ainda a aparência um tanto fúnebre, da partida e da ausência. Atravesso furtivamente o “meu lar”, sem mesmo tocar nas capas dos móveis, sem rabiscar, no veludo da poeira, um nome que seja, sem deixar outro traço da minha passagem além desta carta inacabada.
Inacabada... Caro intruso que eu quis amar, poupo-o. Deixo-lhe a única oportunidade de crescer a meus olhos: afasto-me. A minha carta lhe causará tristeza, tristeza, nada mais. Não saberá a que humilhante confrontação escapa, nem de que debate você foi a recompensa, recompensa que desdenho...
Sim, pois que o rejeito, e escolho... escolho tudo o que não seja você. Eu já o conhecia, e reconheço-o agora. Não será por acaso aquele que, acreditando dar, monopoliza? Você veio para compartilhar da minha vida... compartilhar, sim: desfrutar do seu quinhão!. Estar mais ou menos a par dos meus atos, introduzir-se a toda hora no pagode secreto dos meus pensamentos, não é isso? Por que você e não outro? Eu o fechei a todos.
Você é bom, e com a melhor boa-fé do mundo pretendia trazer-me felicidade, pois que me viu despojada e solitária. Mas, na verdade, você não contou com o meu orgulho de pobre: os mais belos lugares da terra, recuso-me a contemplá-los, tão pequenos me parecem no espelho amoroso do seu olhar...
A felicidade? Você está certo de que doravante a felicidade me bastará?... Não é só a felicidade que dá valor à vida. Você queria iluminar-me com esta aurora banal, pois lamentava a minha obscuridade. Obscura, se quiser: como um quarto visto de fora. Não: sou sombria, e não obscura. Sombria, e preparada pelos zelos de uma vigilante tristeza, crepuscular e prateada como a coruja, como o sedoso camundongo, como a asa da traça. Sombria como o vermelho reflexo de uma pungente lembrança... Mas você é aquele diante do qual eu não teria mais o direito de ser triste...
Fujo, mas ainda não me libertei de si, meu bem. Vagabunda e livre, ainda hei de ansiar pelas sombras das suas paredes... Por quantas vezes ainda, caro apoio que me repousa e me fere, quantas vezes ainda hei de procurá-lo? Quanto tempo levarei evocando o que você poderia ter-me dado , a longa volúpia, interrompida, atiçada, renovada... e a queda dulcíssima, e a vertigem em que as forças ressuscitam da própria morte... e o odor de sândalo queimado e de erva pisada... Ah! Você será, por muito tempo, uma das sedes da minha estrada!
Desejá-lo-ei, ora como o fruto suspenso, ora como a água longínqua, ora como a casinha tranqüila e venturosa em que roço... Deixo, em cada lugar dos meus errantes desejos, milhares e milhares de sombras à minha imagem e semelhança. Esta, aqui, sobre a pedra quente e azul dos despenhadeiros da minha terra; aquela, lá, na cova úmida de um vale sem sol; esta outra vai seguindo o pássaro, a vela, o vento e a vaga. Você conserva a mais tenaz: uma sombra nua, ondulante, que o prazer agita como uma erva num ribeiro... Mas nem ela escapará ao tempo: será dissolvida como as outras, e você nada mais saberá a meu respeito, até o dia em que cessem os meus passos, e em que, da sua Renée, se desprenda a última e a menor das sombras...
Gabrielle S. Colette, A vagabunda
