- Conheço aquele andar. – comentou Nietzsche. –Sua marcha imperial romana. Ela nem liga para possíveis obstáculos, como se nada ousasse bloquear o seu caminho.
- Sim, e aquele ar de confiança inconfundível! Há algo tão livre nela: as roupas, os cabelos, o vestido. Ela se libertou totalmente da convenção.
Nietzche concordou com um gesto de cabeça.
- Sim, a liberdade dela é impressionante... e admirável! Nesse aspecto individual todos tempos a aprender com ela. – Lentamente , virou a cabeça e pareceu satisfeito com a ausência da dor. – Às vezes, pensei em Lou Salomé como sendo uma mutação, especialmente quando se considera que sua liberdade floresceu em meio a um denso matagal burguês. O pai dela foi um general russo, sabia? – Olhou firmemente para Breuer. – Imagino que ela logo o tratasse com total informalidade. Não sugeriu que a chamasse pelo prenome?
- Exatamente. Fitou diretamente meus olhos e tocou minha mão enquanto conversávamos.
- Puxa, como isso soa familiar! Quando nos conhecemos, Josef, ela me desarmou completamente dando-me o braço quando eu ia embora e oferecendo-se para me levar de volta ao hotel.
- Ela fez exatamente o mesmo comigo!
Nietzche ficou tenso mais prosseguiu.
- Ela me disse que não queria me deixar tão rapidamente, que precisava de mais tempo comigo.
- As mesmas palavras que disse para mim, Friedrich. Depois, ela se irritou quando dei a entender que minha mulher poderia se incomodar vendo-me caminhando com uma jovem.
Nietzsche deu uma risada.
- Sei como ela teria reagido a isso. Ela não morre de amores pelo casamento convencional; considera-o um eufemismo para a escravidão feminina.
- Exatamente as palavras dela para mim!
Nietzsche afundou na cadeira.
- Ela desafia todas as convenções, exceto uma; quando se trata de homens e de sexo,é tão casta como uma carmelita!
Breuer anuiu com a cabeça.
- Sim, mas penso que talvez interpretemos erradamente as mensagens que ela envia. Ela é uma menina, uma criança sem noção do impacto de sua beleza sobre os homens.
- Nisso nós discordamos, Josef. Ela tem total consciência de sua beleza. Ela a usa para dominar, para exaurir os homens e, depois, passar para o próximo.
Breuer foi em frente.
- Outra coisa: ela desafia as convenções com tanto encanto, que não se consegue evitar tornar-se um cúmplice.[...]
Ela seduziu nós dois da mesma maneira, com a mesma malícia feminina, a mesma astúcia, os mesmos gestos, as mesmas promessas!
- No entanto, esse autômato o controla. Ela domina sua mente: você se preocupa com sua opinião, você suspira por seu toque.
- Não. Nada de suspiros. Não mais. O que sinto agora é raiva.
- De Lou Salomé?
- Não! Ela não é digna de minha raiva. Sinto ódio de mim mesmo, raiva do desejo que me forçou a precisar dessa mulher. [...]
- Por que tal raiva de si mesmo? – perguntou. – Lembro-me de que disse que todos
temos nossos cães selvagens ladrando no porão. Gostaria tanto que você conseguisse ser mais gentil, mais generoso com sua própria humanidade!
- Lembra-se de minha primeira sentença de granito... recitei-a para você várias vezes, Josef: “Torna-te quem tu és”? Significa não apenas aperfeiçoar a si mesmo, mas também não cair presa dos desígnios traçados por outrem para você. Mas mesmo ser vencido na batalha pelo poder de outrem é preferível a cair presa da mulher-autômato que jamais sequer o vê! Isso é imperdoável!
- E você, Friedrich, você alguma vez realmente viu Lou Salomé?
Nietzsche sacudiu a cabeça.
- O que você quer dizer? – perguntou.
- Ela pode ter desempenhado o papel dela, mas você, que papel você desempenhou? Você eu fomos tão diferentes dela? Você viu a pessoa dela? Ou, em vez disso, viu apenas uma presa: um discípulo, uma terra arada para plantar seus pensamento, uma sucessora? Ou quiçá, como eu, viu beleza , juventude, um travesseiro de cetim, um recipiente dentro do qual escoar seu desejo? Ela também não foi um espólio da vitória na competição surda com Paul Rée? Você viu realmente ela ou Paul Rée quando, após conhecê-la, pediu a ele que a solicitasse em casamento em nome de você? Acho que não foi Lou Salomé que você queria, mas alguém como ela. [...]
- Não pretendo entender o que as mulheres desejam – o tom de voz de Nietzsche era ríspido e irritadiço. – Meu desejo é evitá-las. As mulheres corrompem e estragam. Talvez seja simplesmente o caso de dizer que não me adapto a elas e deixar o barco correr. E, com o tempo, essa poderá ser minha perda. De tempos em tempos, um homem necessita de uma mulher, assim como precisa de uma refeição caseira.
A resposta distorcida e implacável de Nietzsche mergulhou Breuer num devaneio. Pensou no prazer que extraía de Mathilde e de sua família. Que tristeza pensar que tais experiências seriam negadas para sempre a seu amigo! Contudo, não lhe acorria nenhuma forma de alterar a visão distorcida de Nietzsche das mulheres. Talvez fosse coisa demais para esperar. Talvez Nietzsche tivesse razão ao dizer que suas atitudes para com as mulheres haviam sido fixadas nos primeiros anos de sua vida. Talvez essas atitudes estivessem tão profundamente entranhadas que permaneceriam para sempre além do alcance de qualquer tratamento através da conversa. Com esse pensamento, percebeu que esgotara suas idéias. Além do mais, restava pouco tempo. Nietzsche não se manteria acessível por muito mais tempo.
Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou
