segunda-feira, 19 de julho de 2010

Honoré de Balzac, Eugênia Grandet

ASSIM VAI O MUNDO

Aos trinta anos, Eugênia não conhecia nenhum dos prazeres da vida. Sua pálida e triste infância se escoara junto de uma mãe cujo coração desdenhado, amargurado, sempre sofrera. Ao deixar com alegria a existência, essa mãe sentiu compaixão da filha por ter de viver, e lhe deixou na alma leves remorsos e eternos pesares. O primeiro, o único amor de Eugênia era para ela uma fonte de melancolia. Depois de haver entrevisto o seu amado durante alguns dias, dera-lhe o coração entre dois beijos furtivamente aceitos e retribuídos; e daí ele partira, colocando um mundo entre ambos. Esse amor, amaldiçoado pelo pai, quase lhe custara sua mãe, e só lhe causava penas, mescladas a frágeis esperanças. Assim, até então, ela se lançara em busca da felicidade perdendo suas forças, sem as refazer. Na vida moral, como na vida física, existe aspiração e respiração: a alma tem necessidade de absorver os sentimentos de outra alma, de assimilá-los para os restituir, enriquecidos. Sem esse belo fenômeno humano não há vida no coração; o ar falta-lhe, ele sofre e deperece.
Eugênia começava a sofrer. Para ela, a fortuna não era poder nem consolo; ela só podia existir pelo amor, pela religião, pela sua fé no futuro. O amor explicava-lhe a eternidade. Seu coração e o Evangelho lhe assinalavam dois mundos a esperar. Passava noite e dia mergulhada nesses dois pensamentos infinitos, que para ela eram um só. Refugiava-se dentro de si própria, amando e julgando-se amada. Em sete anos, sua paixão invadira tudo. Seus tesouros não eram os milhões cujos rendimentos se acumulavam, mas o cofrinho de Carlos, os dois retratos pendurados sobre sua cama, as jóias resgatadas a seu pai e orgulhosamente expostas sobre uma camada de algodão fino, numa gaveta da cômoda; e era o dedal de sua tia, que fora usado por sua mãe e que, todos os dias ela apanhava religiosamente para trabalhar num bordado, obra de Penélope, empreendido somente para ter no dedo aquele ouro cheio de reminiscências.
Não parecia provável que a Srta. Grandet pensasse em casar durante o luto. Sua piedade verdadeira era do conhecimento de todos. Por isso a família Cruchot, cuja política o velho abade orientava sabiamente, contentou-se em cercar a herdeira, prodigando-lhe os cuidados mais afetuosos.
Em sua casa, todas noites, a sala enchia-se de uma sociedade composta dos mais ardorosos e dedicados cruchotinos do lugar, que tratavam de cantar em todos os tons os louvores da dona da casa. Tinha seu médico particular, seu grande esmoler, seu camarista, sua primeira açafata, seu primeiro-ministro, seu chanceler principalmente, um chanceler que queria dizer-lhe tudo . Se a herdeira desejasse uma porta-cauda, encontrá-lo-iam. Era uma rainha, e a mais habilmente adulada de todas as rainhas. A lisonja nunca emana das grandes almas: é o apanágio dos espíritos pequenos, que conseguem diminuir-se ainda mais para entrar na esfera vital da pessoa em torno de quem gravitam. A lisonja subentende um interesse. Por isso, as pessoas que vinham todas as noites compor o salão da Srta. Grandet, a quem chamavam Srta. De Froidfond, conseguiram maravilhosamente cumulá-la de louvores. Esse concerto de elogios, novos para Eugênia, começou por fazê-la corar; mas insensivelmente, e por mais grosseiros que fossem os galanteios, seu ouvido acostumou-se tanto a ouvir gabar a sua beleza que, se algum recém-chegado a achasse feia, essa opinião a sensibilizaria muito mais do que oito anos antes. Depois acabou por gostar daquelas gentilezas , que depunha secretamente aos pés do seu ídolo. Habituou-se, gradativamente, a se deixar tratar como uma soberana e ver a sua corte repleta todas as noites.

Honoré de Balzac, Eugênia Grandet