quarta-feira, 16 de junho de 2010

Friedrich Nietzsche, O anticristo


Olhemo-nos de frente. Somos hiperbóreos – sabemos bem como vivemos distantes. “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho para os hiperbóreos” – já dizia Píndaro sobre nós mesmos. Para além do norte, do gelo, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade... Descobrimos a felicidade, o caminho que conduz a ela, encontramos a saída de milênios inteiros de labirinto. Quem mais a encontrou? O homem moderno talvez? “Não sei sair nem entrar: sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar”, lamenta-se o homem moderno... E é dessa modernidade que adoecemos – da paz podre, do compromisso covarde, de toda a sujeira virtuosa o moderno sim e não. Esta tolerância e larguer do coração, que tudo “perdoa”, porque tudo “compreende”, é para nós como o vento siroco. Antes viver no gelo do que no meio das virtudes modernas e de outros ventos do sul!... Fomos bastante ousados, não poupamos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos para onde direcionar a nossa bravura; tornamo-nos sombrios, fomos chamados de fatalistas. Nossa sina – era a plenitude, a tensão, a acumulação das forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de atos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da “resignação”... Pairava a tempestade em nossa atmostera, a natureza, que nós somos, obscurecia-se – pois não tínhamos encontrado o caminho. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma finalidade...


Friedrich Nietzsche, O anticristo