Às vezes penso que a única coisa que torna possível viver sem repugnância neste mundo é a beleza que de quando em quando os homens criam do caos. Os quadros que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, e a vida que levam. E, de tudo isto, o que encerra maior beleza é uma vida bela. Essa é que é a perfeita obra de arte.
***
- É o Caminho e o Caminhante. É a estrada eterna por onde todos os seres caminham, e que contudo não foi construída por nenhum ser, porque ela própria é o ser. É tudo e nada. Todas as coisas surgem desse caminho, a ele se adaptam, e a ele voltam finalmente. É um quadrado sem ângulos, um som que os ouvidos humanos não percebem, uma imagem sem forma. É uma rede imensa, e embora suas malhas sejam tão grandes como o mar, nada deixam passar. É o santuário onde todas as coisas encontram refúgio. Não está em parte alguma, mas podemos vê-lo sem olhar pela janela. Deseje não desejar, ensina ele, e deixe todas as coisas seguirem o seu curso. Aquele que se humilha será preservado na sua inteireza. Aquele que se curva será endireitado. A derrota é a base do triunfo, e o triunfo é a tocaia da derrota; mas quem poderá dizer quando é chegado o momento decisivo? Aquele que se empenha em buscar a ternura pode tornar-se igual a uma criancinha. A brandura traz a vitória àquele que ataca e segurança àquele que se defende. Poderoso é quem vence a si.
***
A Kitty parecia incrível (uma velha passava pela estrada, vestida de azul, e o azul ao sol era como lápis-lazúli; seu rosto, com suas mil pequenas rugas, era uma máscara de marfim velho; e ela ia curvada sobre um bastão preto, arrastando os pés pequeninos) que ela e Walter tivessem tomado parte daquela dança estranha e irreal. Tinham, além disso, desempenhado papéis importantes. Ela facilmente poderia ter perdido a vida; ele a perdera. Seria aquilo um gracejo? Talvez não passasse de um sonho do qual acordaria de repente com um suspiro de alívio. Tivera-o talvez, havia muito tempo, num lugar muito remoto. Era singular que as personagens daquela peça se tomassem sombras indefinidas quando vistas ao sol da vida real. E então tudo parecia uma história que ela estivesse lendo naquele instante; e era um tanto surpreendente que aquela história tivesse tão pouco a ver com ela.
***
A cidade da peste era uma prisão de onde ela havia escapado, e ela nunca antes percebera como o azul do céu era intenso e quanta alegria havia nas alamedas de bambus que com uma graça adorável se inclinavam por sobre a estrada. Liberdade! Esse era o pensamento que cantava em seu coração, fazendo o futuro, embora tão sombrio, iridescente como o nevoeiro sobre o rio onde caía o sol da manhã. Liberdade! Não apenas liberdade de um laço que lhe era penoso, e de uma companhia que a desanimava; liberdade, não apenas da morte que a ameaçara, mas liberdade do amor que a tinha degradado; liberdade de todos os liames espirituais; a liberdade de um espírito desencarnado; e com a liberdade, a coragem e uma valorosa indiferença pelo que quer que pudesse lhe acontecer.
Somerset Maugham , O véu pintado
