terça-feira, 15 de junho de 2010

Curzio Malaparte, A pele


Éramos homens vivos num mundo morto. Já não tinha vergonha de ser um homem. Que importava que os homens fossem inocentes ou culpados? Só havia homens vivos e homens mortos sobre a terra. O resto não contava. O resto não era senão medo, desespero, arrependimento, ódio, rancor, perdão, esperança. Estávamos no cume de um vulcão extinto. O fogo que durante milhares de anos queimara as veias daquele monte, daquela terra, da terra inteira, apagara-se de repente, e agora, pouco a pouco, a terra esfriava sob os nossos pés.
Aquela cidade lá embaixo, na costa daquele mar coberto por uma crosta luzidia, sob aquele céu pejado de nuvens tempestuosas, era habitada não por inocentes ou culpados, por vencedores ou vencidos, mas por homens vivos que vagueavam à cata do que pudesse matar-lhes a fome, por homens mortos enterrados sob as ruínas das casas.
Lá longe, até onde o meu olhar podia chegar, milhares e milhares de cadáveres cobriam a terra. Não passariam de carne morta, esses mortos, se não tivesse havido entre eles alguém que se sacrificara pelos outros, para salvar o mundo, para que todos os que, inocentes e culpados, vencedores e vencidos, sobreviventes  aos anos de lágrimas e de sangue, não tivessem de se envergonhar de serem homens. Entre esses cadáveres, entre esses milhares e milhares de homens mortos, estava com certeza o cadáver de um Cristo. Que seria do mundo, de todos nós, se entre tantos mortos não estivesse um Cristo?
- Para que é preciso outro Cristo? - disse Jimmy. - Cristo já salvou o mundo, duma vez para sempre.
- Oh Jimmy, por que não queres compreender que todos esses mortos seriam inúteis se não houvesse um Cristo entre eles? Por que não queres compreender que há com certeza milhares e milhares de Cristos entre todos esses mortos? Tu também sabes que não é verdade que Cristo tenha salvado o mundo duma vez por todas. Cristo morreu para nos ensinar que cada um de nós pode tornar-se Cristo, que cada homem pode salvar o mundo com o seu próprio sacrifício. Também Cristo teria morrido inutilmente se cada homem não pudesse tornar-se Cristo e salvar o mundo.
- Um homem não é senão um homem - disse Jimmy.
- Oh, Jimmy, por que não queres compreender que não é necessário ser filho de Deus, ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e ter assento à mão direita de Deus Pai, para ser Cristo? Foram esses milhares e milhares de mortos, Jimmy, que salvaram o mundo.
- Dás demasiada importância aos mortos - Observou Jimmy. - Um homem só conta se estiver vivo. Um homem morto não é senão um homem morto.[...]
- Estou cansado de viver entre os mortos - Tornou Jimmy. - Sinto-me contente por voltar a casa, por voltar à América, por voltar a viver entre os homens vivos. Por que não vens tu também para a América? És um homem vivo. [...]
- Não posso abandonar os meus mortos, Jimmy. Vocês levam os seus mortos para a América. Todos os dias partem para a América navios carregados de mortos. Morreram ricos, felizes, livres. Mas os meus mortos não podem pagar o bilhete para a América, são pobres demais. Nunca chegarão a saber o que é riqueza, a felicidade, a liberdade. Viveram sempre na escravidão; sofreram sempre a fome e o medo. Serão sempre escravos, sofrerão sempre a fome e o medo, mesmo mortos. É o destino que lhe coube, Jimmy. Se soubesses que Cristo jaz entre eles, entre esses mortos, ias abandoná-lo?
- Não queres com certeza que eu acredite - ponderou Jimmy - que também Cristo perdeu a guerra.
- É uma vergonha ganhar a guerra - disse eu em voz baixa.

Curzio Malaparte, A pele