quinta-feira, 28 de maio de 2009

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray


Poucos são aqueles dentre nós que muitas vezes não acordaram antes da aurora, após uma dessas noites sem sonhos, que quase nos tornam enamorados da morte, ou uma dessas noites de horror ou de alegria monstruosa, quando, através dos escaminhos de nossa mente, deslizam fantasmas mais terríveis que a própria realidade, impulsionados por essa vida intensa que se esconde em tudo que é grotesco e que confere à arte gótica sua vitalidade profunda, uma vez que está é, como se pode perceber, uma arte de indivíduos cuja mente foi perturbada pelas enfermidades dos sonhos e devaneios. Uns dedos brancos sobem pouco a pouco pelas cortinas que parecem estremecer. Delineando formas fantásticas, sombras mudas rastejam pelos cantos do aposento e ali se ocultam. Lá fora está o bulício dos pássaros entre as folhas, estão os passos dos operários que se dirigem para o trabalho, estão os suspiros e soluços do vento que sopra das colinas e vagueia ao redor da casa silenciosa, como se tivesse medo de depertar os que dormem, que de novo teriam que fazer apelo ao sonho em sua gruta cor de púrpura. Nuvens de véu de gaze fina e escura vão-se alçando e gradualmente as coisas retomam suas formas e cores, e eis que observamos a aurora, que refaz o medo em seus moldes antigos, os espelhos lívidos encontram novamente sua vida mímica. As luzes apagadas estão onde as havíamos deixado, e a nosso lado acha-se o livro de páginas ainda ligadas que folheáramos, ou a flor preciosa que usáramos no baile, ou ainda a carta que tínhamos tido receio de ler ou que tínhamos relido muitas vezes. Nada mudou. Afastada das sombras irreais da noite, ressurge a vida, na sua realidade já conhecida. Devemos retomá-la onde a deixamos e apodera-se de nós o terrível sentimento da continuidade necessária da energia no mesmo círculo monótono de hábitos, estereotipados, ou então somos presa de um desejo selvagem de que nossas pálpebras se abram um dia sobre o mundo que tivesse sido refundido nas trevas para o nosso próprio prazer, um mundo onde as coisas que resentariam novas formas e cores, que teria mudado ou que teria outros segredos, um mundo em que o passado ocuparia pouco ou nenhum lugar, em que as lembranças não sobreviveriam sob a forma inconsciente de obrigações ou de pesar, uma vez que a recordação da própria felicidade oferece amargura, assim como alembrança do prazer já contém sua dor.


Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray