quarta-feira, 24 de abril de 2024


 A melancolia se torna mais pura quando o amor a envolve e a alimenta. Dessa associação nasce uma palpitação agradável e suave, uma graça da solidão, um pressentimento voluptuoso do ilimitado. Não lamentamos então não ser uma fonte de lágrimas com uma inesgotável abundância de gotas transparentes que refletissem o mundo com seu esplendor mais encantador do que a mais divina das ilusões e mais arrebatador do que os mais doces sonhos? Não sofremos durante o consolador desfalecimento da melancolia pela impossibilidade de nos dissolver em lágrimas?

Só no amor a melancolia alcança seus próprios cumes, já que só o Eros transfigura a melancolia. A passividade, o prazer, o abandono, a palpitação imaterial purificam a melancolia em tal medida que o estado melancólico puro se torna por si mesmo extremamente fecundo, sem contudo ser criador. Somente quando uma exagerada paixão, uma tensão extrema, de um entusiasmo conquistador, perturba a suavidade e a pureza da melancolia, só então esta se torna criadora. Nos grandes criadores musicais, a melancolia foi sempre sacudida por um vivo ardor, por um apaixonado arrebatamento e por uma intensa energia. Então o infinito da melancolia se torna uma poderosa vibração; as aspirações vagas, impulsos determinados; os pressentimentos, raios; as lágrimas, tempestades; a palpitação imaterial, vontade de realização; o suave pairar acima do mundo, a realização efetiva no mundo; e o prazer, explosão. Não há disposição mais criadora do que a melancólica, quando se vê perturbada por um princípio de antinomia. A sede de mundos infinitos se torna desejo de criar mundos infinitos, e a aspiração a fundir-se na fluidez do infinito, afirmação dramática no infinito. Uma consciência demiúrgica converte o difuso da melancolia em tensões e raios, e de suas ilusões sedutoras alimenta suas trêmulas labaredas com muitas ondulações. A passagem para o plano demiúrgico faz de nossos devaneios projetos vitais; e dos pesares, impulsos irresistíveis. O fluxo da criação é uma onda de impureza e de drama; o refluxo, em um cansaço agradável, é como um retorno a purezas perdidas. Se, pela criação, tivéssemos que renunciar para sempre às delícias da melancolia pura, quantos não renunciariam antes à criação?


Emil Cioran (In: “O Livro das Ilusões”)